Na Amazônia brasileira, incêndios e pandemia são uma mistura desastrosa · Global Voices

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Incêndios no norte do estado do Acre, em setembro de 2019. Foto por Katie Maehler/Mídia NINJA, CC-BY-NC

Esta história, escrita por Izabel Santos e Bruna Melo, foi publicada originalmente pela Amazônia Real. É republicado aqui como parte de um conteúdo parceria com o Global Voices.

As maiores taxas de desmatamento na última década na Amazônia foram gravado ano passado. Mas 2020 poderia ser ainda pior.

UMA estude O Instituto Brasileiro de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), uma ONG sem fins lucrativos, estima que existam pelo menos 4.500 quilômetros quadrados de área desmatada na Amazônia que poderão ser queimados este ano. Essa área é equivalente a três vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

Os cientistas do Ipam acrescentam que, se o ritmo de desmatamento de 2019 for mantido nos próximos meses, essa área poderá dobrar de tamanho até o final de julho, a altura da estação seca e quando a maior parte da queima será iniciada. O relatório observa que, se apenas 60% dessa área de 9.000 quilômetros quadrados queimar, a situação será semelhante à de 2019, quando os incêndios na Amazon provocaram indignação global..

O estudo, publicado em 8 de junho, afirma:

Se tudo virar fumaça, a região pode enfrentar estado de calamidade pública na saúde devido a sobreposição de queimadas com pandemia de Covid-19, o que sobrecarregará ainda mais a rede saúde já em colapso nos atendimentos à população.

Se tudo queimar, a região pode enfrentar uma situação de crise de saúde pública por causa da combinação de incêndios e da pandemia do COVID-19, que sobrecarregará ainda mais o sistema de saúde já em colapso que cuida da população.

O combate a incêndios e desmatamento tornou-se, além de proteção ambiental, uma medida de saúde, segundo um dos autores do estudo, a investigador Paulo Moutinho, membro do Ipam e doutorado. em ecologia.

No ano passado, as cidades que mais queimaram na Amazônia viram seu ar ficar 53% mais poluído, em média, em comparação com 2018. Moutinho enfatizou que, se as autoridades não agirem, isso pode levar a mortes além daquelas causadas pelo COVID-19.

Desde março, o sistema público de saúde da região está sobrecarregado com casos de COVID-19, e três estados da Amazônia estão entre os que apresentam o maior número de casos no Brasil.

De acordo com o IPAM, no final de maio de 2020, 20% das mortes do Brasil pelo novo coronavírus ocorreram no norte do país. região, que também teve a maior taxa de infecção e mortalidade por 100.000 habitantes. Em 6 de julho, o Brasil registrou 64.867 mortes e mais de 1,6 milhão de casos registrados, segundo o Ministério da Saúde.

IPAM declarou:

No Amazonas, no Pará e em Mato Grosso, mais de 20% das pessoas moram em áreas que exigem um deslocamento de até quatro horas para chegar ao município mais próximo com condições de atendimento em casos graves de Covid-19. As pequenas e médias cidades, se atingidas simultaneamente por fumaça das queimadas e infecções pelo novo coronavírus, tendem a não conseguir absorver a necessidade da população.

Nos estados do Amazonas, Pará e Mato Grosso, mais de 20% das pessoas vivem em áreas que requerem até quatro horas de viagem para chegar à cidade mais próxima, com instalações para lidar com casos graves de COVID-19. Cidades pequenas e médias, se afetadas simultaneamente pela fumaça dos incêndios e infecções do novo coronavírus, tendem a ser incapazes de atender às necessidades da população.

A lógica destrutiva dos incêndios

Na história da destruição de florestas na Amazônia, depois que o desmatamento é incendiado, explica a diretora científica do Ipam, Ane Alencar, que também assinou o relatório técnico do estudo.

Como tal, sempre que a taxa de desmatamento aumenta, existe um vínculo direto com o aumento de focos de incêndio. Alencar diz:

Ninguém vai gastar dinheiro para derrubar vários hectares de floresta para depois não usar essa área, mesmo que seja para especulação. Essa área vai ser queimada.

Foi o que vimos acontecer em 2019 e, infelizmente, se nada for feito, é o que deveremos ver em 2020, já que a derrubada continua num ritmo elevado.

Ninguém gastará dinheiro para cortar vários hectares de floresta e depois não usará essa área, mesmo que seja para especulação. Essa área será queimada.

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Foi o que vimos acontecer em 2019 e, infelizmente, se nada for feito, é o que veremos em 2020, pois a derrubada continua em ritmo acelerado.

Os incêndios aumentam a quantidade de fumaça no ar, liberando material particulado fino. Nas áreas mais afetadas pela poluição, há uma explosão no número de pacientes que procuram atendimento médico para problemas respiratórios. Outro pesquisador, o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo, que colaborou no estudo, afirmou:

Durante a temporada de fogo, extensas áreas da Amazônia têm qualidade do ar pior que no centro da cidade de São Paulo devido às queimadas. Isso tem forte efeito na saúde, especialmente em crianças e idosos, que são as populações mais vulneráveis. (…) Como a poluição das queimadas viaja por milhares de quilômetros, comunidades isoladas de índios respiram esta atmosfera insalubre, que é muito acima dos padrões de qualidade do ar da Organização Mundial da Saúde.

Durante a estação de queima, extensas áreas da Amazônia têm pior qualidade do ar do que no centro da cidade de São Paulo devido aos incêndios. Isso tem um forte impacto na saúde, especialmente para crianças e idosos, que são as populações mais vulneráveis. (…) À medida que a poluição dos incêndios viaja por milhares de quilômetros, comunidades indígenas isoladas respiram esse ar prejudicial, muito abaixo dos padrões de qualidade do ar da Organização Mundial da Saúde.

Alencar diz que as autoridades ambientais precisam ser assertivas na luta contra o desmatamento ilegal e a queima:

Se isso não acontecer, temos chances de ter uma pressão muito grande no sistema de saúde da Amazônia e levá-lo, de fato, ao colapso.

Se isso não acontecer, corremos o risco de pressionar demais o sistema de saúde na Amazônia e, de fato, causar o colapso.

Em 22 de abril, em uma reunião de gabinete com o presidente Jair Bolsonaro, Meio Ambiente Ministro Ricardo Salles disse que o governo deve aproveitar o fato de que a mídia está focada na pandemia para “administrar o rebanho de gado” – o que significa reduzir sistemas burocráticos que regulam questões ambientais no Brasil.

A tractor in an area of illegal deforestation in São Félix do Xingu, Pará, in 2012. Photo: Alberto César Araújo/Amazônia Real

Incêndios aumentam 35% no Acre

O número de incêndios no estado do norte do Acre detectados em 2020 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), instituição de referência para monitoramento de satélites no Brasil, já é 35% maior que no mesmo período de 2019.

O INPE informou que entre 1º de janeiro e 14 de junho deste ano, houve 84 focos de incêndio no estado, em comparação com 62 incêndios em 2019. Ao longo de 2019, o INPE detectou 6.802 focos de incêndio nas florestas do Acre.

O número de incêndios registrados em áreas urbanas pelo Corpo de Bombeiros do Acre foi de 6.867 em 2019. Assim, o número total de focos de incêndio no estado excedeu 13.000 no ano passado (em áreas urbanas e rurais).

O porta-voz do Corpo de Bombeiros, major Cláudio Falcão, disse que 999 incêndios foram registrados apenas em Rio Branco, capital do estado, até 7 de junho. No mesmo período do ano passado, o número era 544. No estado do Acre, foram registrados 1.086 incêndios urbanos. Ele disse:

Não sei o que é mais difícil o controle das queimadas ou da pandemia. Todos os anos nós passamos por dificuldades, mas a população continua queimando.

Infelizmente, temos registrados um aumento de queimadas. E isso faz com que o sistema de saúde se sobrecarregue ainda mais porque começam a aparecer doenças respiratórias. Vamos ter um problema muito sério.

É preciso conscientização da população e intensificação dos órgãos de fiscalização para podermos diminuir essa situação

Não sei o que é mais difícil de controlar, os incêndios ou a pandemia. Todos os anos temos dificuldades, mas a população continua incendiando.

Infelizmente, registramos um aumento de incêndios. E isso torna o sistema de saúde ainda mais sobrecarregado porque problemas respiratórios estão começando a ocorrer. Nós vamos ter um problema muito sério.

É necessário aumentar a conscientização do público e fortalecer os órgãos de fiscalização para aliviar essa situação.

Segundo o Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente da Universidade Federal do Acre (UFAC), em 2019 foram queimados mais de 175.000 hectares. As cidades que mais queimaram foram Sena Madureira, Rio Branco, Feijó, Tarauacá e Brasiléia. Pelo menos 1.700 hectares foram afetados por incêndios na região de Alto Acre. Uma parte significativa dos incêndios florestais ocorreu na Reserva Extrativista Chico Mendes e em terras indígenas.

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